quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Com Corda.

Mundo diz onde é a partida,
Mostra sempre uma saída.
Se não grita qual na hora,
O homem a traz de memória,
Cada comando recorda,
E o segue, sempre concorda.

A Sociedade dita
Como deve ser sua lida.
Se não impõe, com juro cobra,
Propõe tudo a ser sua obra.
Caminho por outros traçado,
Homem faz mesmo cansado.
Sem ego, sempre concorda.

Prometem mundos e fundos,
E ele investe, acredita.
E como um moribundo
Vaga sem ser vagabundo!
Nada de si em si guarda,
Não pensa, pois isso tarda.
O homem sem um mais surdo,
Escuta a todo absurdo.
Sem cor ou sabor sentido,
Sem gana, ou por convencido,
Retorna a rotina mudo,
Sem gás, nada audaz concorda.

Para sarar as feridas
Oferecem-lhe bebida.
Pra não ficar fatigado
Proíbem o seu cigarro.
Numa mão uma ampulheta,
Demonstrando o que lhe aguarda,
Noutra a lista da dieta,
Com o que ele pouco se enfarta.
E o mundo nele transborda,
Até que ele concorda:
Beber, bebo inseticida,
A cortar que não o fumo,
Não renderei mais tostões,
Rendo-me de coração.
Era a feliz despedida,
A hora da sua subida!
Arremessa o que segura,
Toma nas mãos sua vida.
Ascende em uma cadeira,
No topo ele se pendura.
Pra sua última caída,
Nada de opinião de outro,
Concorda consigo mesmo
E com o pescoço preso
Com corda pula, com o peso
Do mundo, do mal, dos medos,
A primeira sacudida
Que deu em toda sua vida
Teve um tom roxo e pardo,
Quando se tornou o fardo
Com cor de um suicida.

(André Falcão Freire)

Um comentário:

  1. Sendo sem corda fico de acordo
    Como na arte que traz a catarse
    Mostrando a trama o enlaçamento
    Após o desespero do personagem
    Dando então tempo ao espectador
    Para desatar nós ou jogar fora
    Cordas que lhe deram para salvar
    Sua vida da correnteza de cizal
    Cintos, fitas, cordões sintéticos
    De um mundo amarrado que amarra
    A todos na ditadura do material

    Pedindo desculpas pela pseudo-poesia de supetão, afirmo o apoio ao trabalho feito, dos melhores de até então do camarada de nome Falcão.

    Rapaz, a propósito de tudo aqui, outro dia um cara veio me perguntar o que eu acha de uma época onde as pessoas conseguissem viver bem indefinidamente com o uso de tecnologias e similares. Minha resposta foi mais ou menos que o resultado seria suicídio generalizado.

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