quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Quem seremos?

O que vamos fazer aqui (ou além)? Talvez eu faça somente essa pergunta e o desenvolvimento dessa questão nos próximos minutos. Mas vamos em frente...

Que questões serão tratadas? Por quê serão feitos X, Y e Z trabalhos? Sobre quais bases? Qual a sustentabilidade da cultura que será desenvolvida? Quais trabalhos e esforços foram feitos antes do que será posto? Haverá uma busca de alicerces para garantir as paredes que serão mostradas? Se alguém se abrigar sob esse teto de palavras sairá vivo depois? Isso é grave. Cultura é uma coisa grave. Mesmo que ninguém leia, os envolvidos podem eles mesmos lerem e ficarem soterrados sob os escombros, os efeitos podem ser devastadores sobre a alma das pessoas, sobre toda uma vida, sobre mesmo as condições de produtividade das pessoas. Se não, podemos perguntar em que situação cada um no mundo hoje se encontra, o que temos para apresentar, etc.

Qual será o nosso papel? Temos um papel? Quais as expectativas de cada um dos outros membros? Qual o valor que se dão? Tudo isso é importante saber. Vou participar? Sim. Mas pergunto: quantos minutos da minha semana deverei gastar nesse trabalho? Tudo isso vai de acordo com o que os outros envolvidos pensem a coisa, pensem da vida. Até poderia dizer que o que pensa um companheiro do valor do meu tempo é importante para se pesar antes de iniciar uma caminhada, o que pensa alguém do valor de sua própria vida, de seu próprio tempo, isso também.

O que estamos fazendo de nosso tempo hoje? Eu mesmo sofro por não poder gastá-lo em algo mais digno em alguns momentos. Onde se produziu trabalhos belos, dignos, inteligentes, fundamentados, etc. entre telespectadores de novelas de Globo ou coisas do tipo? Onde em toda a história se produziu algum pensamento que não tenha sido corda para enforcamento ou pedra de tropeço entre divinizadores do horizontal, do espaço-tempo, do Estado, das modas, dos verbalismos e dos pensamentos espertinhos/inteligentinhos? Onde se colheu sem suor e se resgatou sem grande suor ou derramamento de sangue? Como outrora eu dizia: do céu só cai água e não é mineral.

Vivemos num mundo de títulos, roupas, outdoors, conversas de tias, notas, instituições, broches, adesivos, propagandas, desonestidades, desonestidades, desonestidades. É terrível. Espero que meu texto esteja sendo lido com olhar de quem quer buscar o melhor e não de automatismo-sabe-tudo. O mundo hoje está inteiro perdido no automatismo. Essa coisa do título é o tudo, a telinha, a imagem. A dor não é minimamente respeitada, a verdadeira face de cada um não é respeitada, a luta não é respeitada, a busca não é respeitada, a experiência verdadeira não é respeitada e posso colocar mil etceteras. Chegamos a um tempo em que qualquer moleque sai dando conselho para quem viveu, sofreu, buscou e sabe. É um tempo perigoso de se viver. Veja-se um testemunho pessoal: no próximo mês farei 25 anos de muito sofrimento, buscas, humilhações, estudos etc. e nesse tempo todo encontrei UMA pessoa que me ouviu com respeito e me colocou numa altura próxima de onde de fato estou, uma só pessoa não tentou me colocar para baixo ou desprezar quantidade relevante dos sons saídos da minha boca.

O mundo moderno perdeu qualquer limite, qualquer senso de hierarquia, qualquer vergonha. Quando falo, peço apenas humildade, mas normalmente o que vem de longe é pedras e acusações as mais diversas. Falo com a voz mais baixa possível, como João Batista o fez após passar tantos anos no silêncio do deserto. Apenas clamo, quase como quem sussura constrangido, mas com a cara de preocupação de quem passou anos no deserto e apenas pede o arrependimento, que nada mais é do que a humildade, que é o que tento colocar. Apenas peço humildade: ser o que se é, sem mais nem menos, e querer que os outros sejam o que são, o que inclui, por exemplo, não apoiar para que sejam menos do que tem que ser.

Após a esculhambação prévia feita contra o excesso de roupagens do mundo saduceu, fariseu e greco-romano, essa podre e fedorenta gritaria, venho aqui com minha silenciosa e pobre túnica clamar mais uma vez pelo real.

Não existe boa produção de letras sem leitura. Não existe bom conselho sem experiência real por trás. Não existe religião sem revelação. Não existe boa arte sem grande profundidade interior do artista. Não existe boa filosofia sem continuado e sério exercício de busca de uma sabedoria que não se tem nem nasce feito árvore. E eu posso dizer que é possível a boa produção quando há a seriedade do humilde, que não faz nada como quem vai brincar de ir e voltar do trabalho ou escola, mas como quem vai a uma aventura ou peregrinação a terras distantes. Nada que seja feito sem a seriedade de quem está salvando uma vida para mim tem sentido. Nunca algo feito sem essa seriedade, esse amor, deu certo na história da humanidade. Costumo considerar tudo que não é feito com a seriedade de quem está salvando uma vida como um desrespeito à vida, como um desrespeito à minha pessoa individualmente, como desrespeito à realidade.

As vezes acho que uma das maiores provas de superação humana é a pessoa conseguir passar décadas em trabalhos convencionais ou utilizando-se de prostitutas ou assistindo várias horas por dia de TV ou respeitando fraudes ou acreditando em farsas. Isso tem sido feito por muitos, quase todos, o tempo todo. Os companheiros dessa possível caminhada também já deram várias provas de superação humana incríveis e nesse sentido eu acredito que podem fazer um bom e grandioso trabalho.

Condenso tudo agora, antes de partir para minhas sugestões, em uma só pergunta: o que quero com qualquer trabalho que eu faça e com esse aqui? Quero que as pessoas sejam felizes. Isso é o que eu quero. E os demais? Então o que ocorre é que há dois caminhos básicos: 1 Os demais não quererem o mesmo ou acharem que não é possível ou considerarem por vícios de pensamento que todo o mundo já se encontra num estado satisfatório de felicidade e que basta a todos continuarem com mais verbalismo que o mundo precisa é disso mesmo etc.; 2 Os demais acreditarem mais ou menos no mesmo que eu. No primeiro dos casos eu posso participar sem qualquer dedicação e somente jogando resmungos e piadas, já que o meu nome poderia se envolver, ou jogando merda (verbalismo para mim é merda) caso a coisa fique só no anonimato. No segundo caso, dependendo do grau de interesse dos demais em felicidade alheia, poderia então me dedicar proporcionalmente a quantidade de amor dos demais que perpasse os pontos escolhidos.

Primeiro que tudo que se faça necessita para dar certo que venha acompanhado do exercício de ser. O que somos? Qual esforço fazemos para ser? Qual o grau de coerência de tudo relacionado a nós, das palavras, dos gestos, dos interesses, das ocupações, do nosso amor ao nosso ser? O que investimos na nossa personalidade? Investimos no cardápio convencional? Nossa vida é uma escolha em grande parte do cardápio convencional oferecido pela TV, pela escola, pelas memórias que temos escondidas, e, em síntese, pelo mundo moderno? Quão mais feio cada um é em comparação a quando eram bebês? Será que merecemos o mínimo respeito depois de tanto enfeiamento nas áreas em que foi escolhido conscientemente (e se não era consciente, agora assim seja)? Quantas horas nossas são investidas no banal, repito, no convencional? O que fizemos nos últimos anos na maior parte do tempo?

Segundo ponto, qual interesse que temos pelo que fazemos? Quais blogs lemos, quais jornalistas, quais revistas de cultura? Quanto fizemos isso? Será que seria justo fazer alguém correr o risco de nos ler sem termos qualquer interesse no que fazemos? O nome disso não seria nem charlatanismo, mas brincadeira infantil. E sem graça.

A terceira questão que faço é perguntar qual o tamanho da casa que se quer construir? Pouco tempo atrás li uma entrevista do editor da revista Dicta&Contradicta e ele falava que um dia depois do lançamento do terceiro número da mesma a pergunta que se fizeram ao se reunirem foi: como estará o nosso trabalho daqui a 500 anos? Eu sei que estou falando com natalenses e a mera citação de um trabalho alheio já deve fazê-los começar a procurar uma pedra no chão para jogar na minha cabeça por ter eu cometido o delito de não pensar provincianamente, mas apenas faço questão de buscar especificações nessa linha. Se for possível que eu tenha nascido para produzir uma Dicta&Contradicta, qual não seria a irresponsabilidade que me meteria em dispor meu tempo entre pensamentos pequenos e/ou circulares? E como é que as pessoas conseguem se rebaixarem, se acharem incapazes ou mesmo fazerem opção tranquilamente pela miséria (falo a nível de conteúdo e intenções, não de abrangência ou estrutura)?

No meio de tanto ativismo e onguismo bobo, no meio de tanto projeto de vida egoísta, no meio de tanta dedicação que resultará em nada, o que me proponho é algo muito mais simples, fácil, justo, inteligente, honrado, digno, belo: fazer uma revolução cultural (e psicológica, e espiritual, e educacional e etc.) em Natal. Isso é perfeitamente possível. Tudo depende de se ter coragem e seriedade mínimos. É o que eu decidi fazer nos próximos tempos. É algo que poderia estar incluso nesse caminho.

De qualquer maneira estou disponível de acordo com o que os demais estiverem e tendo em vista que a vida não é feita só de horizontal, mas a verdadeira vida tem vertical transpassando, e isso não é discurso, é questão visceral, real, atual, necessária a qualquer grau de respeito e dignidade D.C. Se A.C. fosse, eu admitiria. D.C., não dá para aturar a idolatria do horizontal.

E agora? Digam-me o que querem e eu entenderei para onde vamos (se formos).

Um comentário:

  1. Além de amar, admiro.

    Paulo, meu mentor, meu amigo, meu pai.

    Minha intriga maior e minha esperança dentre os que estão na Terra.

    André,

    Seu parceiro.

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